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Quando o especialista inviabiliza o seu negócio

Quando o especialista inviabiliza o seu negócio

Em janeiro de 2014 o programa Mais Você, apresentado na rede globo, mostrou uma matéria onde um renomado especialista dava dicas para Simone, uma bibliotecária que após o expediente faz dois tipos de doces para complementar a renda, beijinhos e brigadeiros.  O texto abaixo não é uma crítica à posição do economista. Somente um ponto de vista diferente, talvez menos teórico e mais gerencial.

O link para o vídeo está logo abaixo, e a parte que discutimos nesse texto começar a partir dos 2:56 minutos.

Clique aqui para ver o vídeo

No vídeo a Simone segue as dicas do economista que faz os cálculos de custo para beijinhos e brigadeiros, os doces de Simone:

O especialista começa levantando os custos dos ingredientes:

No caso Beijinho temos:

2 latas de leite condensado = R$6,78
250g de coco ralado = R$4,50
01 colher de margarina = R$0,50
40 forminhas = R$5,20

Total = R$16,98

Para calcular a mão de obra o economista dividiu o salário da Simone pelo número de horas que ela trabalha na livraria e chegou ao valor de R$19,32. Ou seja, o valor hora da mão de hora da Simone, segundo o economista, é de R$19,32. Considerando que ela leva 4 horas para comprar os ingredientes, fazer os doces, e entregá-los o custo de mão de obra por receita chega a R$77,28. Somado aos R$16,98 dos ingredientes e forminhas o custo por receita é de R$94,26. Dividindo o custo total pelo número de 40 beijinhos o valor de custo unitário é de R$2,36. Apesar de não mostrar o cálculo o economista faz as contas e dá para Simone o preço de venda para o brigadeiro de R$3,20, e o preço de venda do beijinho a R$3,00.

Mas você compraria um Beijinho a R$3,00 e um Brigadeiro a R$3,20?

Aqui, sujem algumas questões conceituais importantes para serem analisadas.

A primeira delas é com relação ao custo de mão de obra da Simone. Simone é bibliotecária chefe, e quando o economista utiliza o valor do salário que Simone ganha na livraria ele utiliza o conceito de custo de oportunidade. - A grosso modo custo de oportunidade é o valor ou benefício que deixamos de usufruir quando fazemos uma escolha. O exemplo mais compreensível é o de quando vamos comprar um carro e ficamos em dúvida entre dois modelos. Comprar um significa não comprar o outro. - Utilizar esse conceito só é correto se a Simone tiver a opção de trabalhar as quatros horas que ela utiliza com seus doces na livraria. Se isso não for possível, algo que acreditamos que não seja, o conceito de custo de oportunidade não é o mais interessante a essa situação. Nesse caso o valor da hora deve ser o valor que ganharia uma doceira na região onde Simone faz e vende seus doces. Já sabemos que Simone ganha R$19,32 por hora, logo se ela trabalhar 44horas semanais ela ganha em torno de R$3.400. Ou seja, muito mais do que deve ganhar uma doceira. Vamos considerar que uma doceira ganhe a metade do que ganha Simone. Logo o valor com mão de obra por reiceita já cairia de R$94,26 para R$47,13. Somado ao custo de R$16,98 dos ingredientes o valor da receita fica em R$64,11. Dividindo esse valor por 40 chegamos ao novo custo de R$1,60 por beijinho. Se Simone praticar o preço de R$2,00 que praticava antes tem um lucro de R$0,40 centavos por doce. Uma redução e tanto, não é?
Mas podemos ir além. Simone não vai ao mercado comprar os ingredientes para cada receita individualmente, logo o tempo de quatro horas que inclui a compra dos ingredientes deve ser menor que o utilizado no cálculo, uma vez que cada vez que vai ao mercado ela pode comprar ingredientes para 10 receitas tranquilamente. As entregas também não são feitas de forma individual, não acreditamos que ela faça viagens separadas para cada tipo de doce, ou seja, esse tempo de entrega pode ser dividido no mínimo por dois. E aí temos novas reduções no custo dos doces de Simone.
Uma terceira questão a ser levantada é a finalidade com que a Simone faz os seus doces: complementar a renda. Por essa perspectiva somente o custo de trabalho dela já é a fonte de lucros. E só vai passar a ser custo de oportunidade quando ela deixar de trabalhar na biblioteca e se dedicar exclusivamente ao doces.
O ponto central da análise é que muitas vezes a teoria precisa ser ajustada a prática para ser aplicada, e análises estritamente teóricas podem mostrar como inviável uma atividade que é lucrativa. Para que isso não aconteça, todo estudo de um negócio deve se pautar sim no conhecimento acadêmico, mas a prática deve balizar sempre qualquer decisão.